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As superpróteses já existem? Como as novas tecnologias impactam na vida de pessoas com deficiência?

Paula Pfeifer. Idealizadora do Surdos Que Ouvem. Foto: João Januário

Um ciborgue é um organismo constituído de partes orgânicas e cibernéticas, geralmente, com a finalidade de melhorar suas capacidades, utilizando tecnologia artificial.

O termo foi cunhado na década de 1960, por cientistas que estudavam a necessidade de desenvolver uma relação mais aproximada entre os humanos e as máquinas, principalmente, para que estas últimas permitissem que as pessoas sobrevivessem em situações extremas.

Ao ler essa descrição, é possível imaginar que o texto trata sobre ficção científica, sobre as mais recentes pesquisas da NASA ou da rotina de um supersoldado criado pela força militar. Mas, na realidade, é introdução sobre a vida de uma estudante, uma escritora e uma cabeleireira.

Debora Panho tem um salão de beleza e cuida sozinha de dois filhos – Maitê, de sete anos, e Gael, de três. Há dois anos, a mãe solo sofreu um acidente de carro. Foi uma colisão frontal com um caminhão de combustível. No acidente, ela quebrou os dois tornozelos, precisando ficar um tempo sem caminhar. Mas foram os cacos de vidro que cortaram o seu rosto que fez a vida dela mudar.

Debora Panho veste blusa branca rendada e usa cordão e argolas douradas. De cabelo solto e sorrindo, Débora segura sua prótese de olho a frente do rosto.
Debora Panho. Fonte: acervo pessoal

Debora é monocular há dois anos. Nesse período, muita coisa aconteceu. Ela fez uma plástica ocular, colocou uma prótese, tornou-se social media e abraçou a causa da visão monocular, estando à frente do projeto social Team Monoculares. Além disso, continuou trabalhando como cabeleireira em seu próprio salão, apenas parou de cortar cabelo, especializando-se em penteados.

Seu trabalho como social media e influencer só agrega mais valor ao Team Monoculares, promovendo mais inclusão social por meio da sua atuação profissional.

Além de arrecadar fundos para que outras pessoas que precisam de prótese ocular possam realizar a cirurgia, o projeto forma uma rede de apoio a pessoas com visão monocular. "São pessoas que precisam ter a autoestima recuperada, tirar as dúvidas, trocar experiências e informações a respeito da visão monocular e das dificuldades encontradas diariamente, assim como questões sobre os direitos", explica Debora.

Todo suporte é bem-vindo para as pessoas que necessitam passar por uma cirurgia como essa. Apoio psicológico, apoio para a inclusão social e, por fim, apoio financeiro, uma vez que o preço desses procedimentos e próteses não são acessíveis à maioria dos brasileiros.

"Precisei ficar um tempo de cama. Entre a plástica e a prótese ocular, foram 45 dias de espera. E eu tive de ir até as redes sociais, pedir ajuda, fazer uma vaquinha online, já que a cirurgia custou R$ 17 mil”, recorda.

Debora conta com alegria que a prótese devolveu sua autonomia e fez com que sua autoestima fosse renovada. "A prótese ocular, para mim, foi muito importante em relação às questões estéticas e de inclusão social. Porque eu perdi todo o globo ocular. Tive de fazer reconstrução da pálpebra. Então, isso impactou muito minha vida, já que sempre fui supervaidosa", afirma.

Ela conta que o sucesso da cirurgia se deu graças a um bom profissional protético, que soube ver a necessidade de a prótese ser muito parecida com o olho real. Durante o procedimento, é necessário fazer uma estrutura de cavidade, uma estrutura estética, assim como fazer com que tudo isso acompanhe os movimentos do outro olho.

Esse processo todo pode ser demorado e custoso, mas vale a pena, diz Debora. "Só oito meses depois do acidente fui colocar minha prótese ocular. Mas eu sou muito grata por estar viva e poder continuar minha vida normalmente."

O fato é que, o que restabeleceu a autonomia de Debora em tantos âmbitos da vida, foi um pequeno objeto de matéria não orgânica.

OUVIDOS BIÔNICOS

A tecnologia sempre acompanhou o ser humano. Em uma relação simbiótica, na qual a tecnologia melhora o ser humano – que melhora a tecnologia – que melhora o ser humano – seguindo assim indeterminadamente. Mas quando se trata dessas próteses, o ser humano e a tecnologia estão tão fundidos, que se torna cada vez mais difícil dizer que aquela máquina não é, também, a pessoa.

A escritora e empresária Paula Pfeifer tem dois implantes cocleares. Essas próteses a transformaram em uma surda que ouve. Sem elas, Paula não escutava nada ao lado sequer de uma turbina de avião. Mas, com elas, consegue ouvir todos os sons do mundo, aos quais seus ouvidos não lhe dão mais acesso há muitos anos.

"Elas revolucionaram minha existência inteira e me permitem vivenciar uma deficiência com muito mais facilidade e qualidade de vida."

Os ouvidos que não ouviam, tornaram-se nada mais e nada menos do que ouvidos biônicos. É possível modular o volume do que se escuta. Assim como escolher o que se quer escutar e o que não quer.

"Meus implantes conectam via bluetooth com qualquer dispositivo, e eu posso atender uma ligação telefônica no meio de um show de rock e ouvir apenas a voz de quem fala do outro lado da linha", explica.

Ela parece ter uma vida um tanto agitada. Além de escritora, Paula hoje também é palestrante e consultora, e ainda consegue tempo para cuidar de seu filho Lucas, que está com dois anos e meio. Mas quando está precisando de um momento de paz e descanso, Paula afirma "simplesmente desligar os ouvidos por um período”.

E não é apenas na vida de Paula que essas máquinas de última geração tiveram um grande impacto e promoveram enorme transformação.

“O impacto nos outros também é gigantesco, pela total facilidade de comunicação que têm comigo e por tudo o que aprendem sobre surdez ao conviver com uma surda que ouve através da tecnologia.”

O termo "Surdos que ouvem" tornou-se hashtag, campanha, passeata e principal projeto de Paula, que promove a desmistificação da surdez e a informação sobre reabilitação auditiva.

METADE SER HUMANO, METADE MÁQUINA

As próteses cocleares podem ser fornecidas pelo SUS, assim como via planos de saúde no Brasil. Mas, segundo a estudante e atleta Jessica Oliveira, no nosso país o avanço da tecnologia protética está muito aquém de outros países.

"Infelizmente na rede pública são de má qualidade e na rede particular os preços são muito altos, por esse motivo há muitos deficientes físicos que não têm condições e ficam sem ter o acesso às próteses", relata.

Jessica é estudante e já faz parte da natação paralímpica do Vasco. E, assim como nossas entrevistadas anteriores, tem participação em um projeto social, o Projeto Correndo por Eles, que promove a corrida de rua como ferramenta de bem-estar e inclusão social para pessoas com deficiência.

A vida de Jessica é tão singular quanto impressionante. Motivo pelo qual ela está também ingressando no mundo das palestras motivacionais. "Por meio da minha história e experiência de vida, posso impactar", aponta.

Jessica possui duas próteses de braço – mecânica com movimento de tirante – e duas próteses de perna – desarticulada de joelho microprocessador C-leg, com pé fibra de carbono.

Se a tecnologia devolveu a autonomia para Debora, ampliou a audição de Paula para além da capacidade humana, aproximando-as do conceito de ciborgue citado no início, não resta dúvida de que no caso da Jessica, a tecnologia possibilitou praticamente todos seus movimentos. Metade ser humano, metade máquina. Essa é a definição mais abreviada do significado de ciborgue. Jessica Oliveira, também chamada de Jessy-Borg (Jessy-robô) faz parte dessa forma de estar no mundo, que historicamente é tão recente.

Jéssica Oliveira utiliza próteses nos quatro membros, veste short laranja e camisa amarela com número de participação de corrida na direção do peito. Jéssica está próxima a linha de chegada em uma prova de rua.
Jessica Oliveira. Fonte: acervo pessoal

Essas tecnologias tão avançadas têm enorme impacto na vida de quem teve seu corpo transformado por elas e também na vida de quem convive com essas pessoas. Para Jessica, tanto essa transformação quanto esse impacto são positivos.

"Eu vejo muito como qualidade de vida, ter a chance de recomeçar uma nova vida e ter a independência. As pessoas admiram, até me apadrinharam como ‘Jessy-borg’, conta, referindo-se ao apelido que também significa “Jessy-robô”. 

Um implante ocular feito com a precisão e a estética próprias de uma obra de arte, ouvidos que não mais escutavam tornaram-se ouvido biônicos e membros antes ausentes agora são apenas partes mecânicas que compõe um corpo completo.

Esses são alguns testemunhos do impacto da tecnologia sendo utilizada a favor das necessidades humanas, construindo corpos tão ou mais eficientes do que o corpo humano, e colocando em xeque o que definimos como deficiência, uma vez que quando tão fundida ao orgânico corpo humano, faz borrar as fronteiras entre o que é deficiente ou "supereficiente". 
 

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